Celulite ou lipedema?

Certamente, assim como muitos profissionais, você já atendeu uma cliente/paciente com celulite que não tem boas respostas às terapêuticas ofertadas para tratá-la. E você sabe por quê? Simplesmente, porque provavelmente não era apenas celulite, mas, sim, lipedema.

Muito confundido com a celulite, o lipedema é uma doença genética hereditária, crônica e progressiva, que afeta o tecido conjuntivo e a tela subcutânea, e acomete preferencialmente o sexo feminino, possuindo algumas teorias para o seu desenvolvimento.

O lipedema foi descrito pela primeira vez em 1940, por Allen, como “…aumento bilateral das pernas devido à deposição subcutânea de gordura nas nádegas e extremidades inferiores e frequentemente edema leve nas pernas”.

É considerado uma lipodistrofia dolorosa, que decorre da inflamação na tela subcutânea da área acometida e lentificação do fluxo linfático.

Sabe aquela celulite resistente, que não cede com dieta alimentar e exercícios físicos, e afeta pernas e/ou braços ao ponto de “serem denominados de gordos”? Pois é, essas também são características do lipedema, que não é uma doença incomum: cerca de 11% das mulheres são acometidas por ela, porém subdiagnosticadas, pois grande parte dos profissionais de Saúde Estética desconhece a sua existência e, consequentemente, tratam-na de forma inadequada e, o pior, pioram o quadro.

Um dos primeiros sinais do problema é o aumento do volume de gordura na região de quadril, pernas e/ou braços com presença recorrente de equimoses, dor persistente e presença de retrações do tecido (decorrentes da fibrose). O quadro é progressivo e quando não tratado de forma adequada pode evoluir para um lipolinfedema.

Não há um evento ou uma condição específica para o desenvolvimento do lipedema, haja vista ser uma uma doença genética, mas alguns fatores, como alterações hormonais (nas fases de puberdade, gestação, climatério e menopausa), podem ser chaves de start para a percepção do quadro – isso pela influência dos estrógenos nas áreas acometidas, situações de estresse, anestesia geral, entre outros.

A progressão do lipedema se dá por estágios e difere muito de paciente para paciente. É classificado segundo a gravidade (estágios) e tipos (localização).

Estágios:

  • Estágio 1: a pele é lisa e as pernas podem parecer normais, mas há presença de dor e uma sensação nodular no tecido adiposo, as contusões são fáceis. 
  •  Estágio 2: a gordura do lipedema exibe um padrão semelhante ao de um colchão, indicando fibrose sob a pele que pode ser encontrada na parte superior das pernas (tipo II) ou que se estende até os tornozelos (tipo III).
  • Estágio 3: há dobras de tecido e a gordura do lipedema geralmente se estende até os tornozelos. 
  • Estágio 4: existência de lipolinfedema.


Tipos:

– Tipo I: acomete abdome inferior, região de glúteos e região trocantérica.

– Tipo II: acomete abdome inferior, região de glúteos, região trocantérica e se estende até próximo à região de fossa poplítea.

– Tipo III: acomete abdome inferior, região de glúteos, região trocantérica, se estende pela região de fossa poplítea até os maléolos.

Tipo IV: acomete membros superiores.

Tipo V: acomete a região superior da fossa poplítea se estendendo aos maléolos.

(Fonte: Kruppa et al, 2020)

Sintomas:

Variam de pessoa para pessoa, mas os mais relatados são (podem estar associados em maior ou menor grau):

  • Envolvimento de ambos membros, sempre de forma simétrica;
  • Dor em tecidos moles, com hipersensibilidade ao toque;
  • Equimoses (devido à fragilidade capilar);
  • Hipermobilidade articular;
  • Edema ortostático;
  • Coxins de gordura lipedêmica nas regiões medial, lateral e acima dos joelhos;
  • Perda de elasticidade da pele;
  • Presença de tecido fibrótico;
  • Temperatura diminuída nas áreas acometidas, fadiga crônica;
  • Textura borrachosa da área acometida;
  • Queda de cabelo exacerbada (pelo déficit de ferritina);
  • Gordura resistente à dieta hipocalórica e atividade física
  • Baixa de vitamina D, ferro e/ou B12.


Diagnóstico:

Basicamente é clínico, feito através de informações colhidas na anamnese e nos sinais clínicos. A bioimpedância é um exame auxiliar no diagnóstico – ainda não existem exames laboratoriais e de imagens que diagnostiquem a doença.

A Etiopatogenia abrange:

  • Microangiopatia: aumento da permeabilidade e fragilidade capilar, extravasamento de proteínas ao interstício e fácil formação de contusões – a fragilidade dos capilares é causada pela angiogênese patológica (aumento da expressão de VEGF- Fator de Crescimento Endotelial Vascular).
  • Hipóxia: um indutor da angiogênese causa a produção do Fator de Crescimento Endotelial Vascular que, por sua vez, estimula a angiogênese para suprir a demanda tecidual por oxigênio, altas taxas de malondialdeído (MDA) e proteínas carboniladas, ambas marcadoras de estresse oxidativo.
  • Hipertrofia e hiperplasia de adipócitos: o tamanho dos adipócitos no tecido com lipedema foi mais variado e frequentemente maior quando comparado ao tecido gorduroso normal (diâmetro maior do que 150μm, normal de 100μm) com macrófagos ao redor, os adipócitos necróticos no tecido de lipedema estavam cercados de estruturas com aspecto de coroa que consistiam em macrófagos CD68+, mudanças degenerativas e regenerativas concomitantes, caracterizadas por adipócitos necróticos e com proliferação de células-tronco derivadas de adipócitos, sugerindo adipogênese que poderia levar à hipóxia.


Tratamento:

Não há cura ou tratamento para resolução definitiva do lipedema. No tratamento conservador, as estratégias abrangem alimentação anti-inflamatória, gerenciamento do estresse, drenagem linfática manual e uso de meias compressivas.

O tratamento cirúrgico de escolha é a lipoaspiração tumescente, que deve ser realizada por um médico que conheça e domine a técnica neste perfil de pacientes, pois requer habilidade, destreza e utilização de materiais específicos para a lipoaspiração.

Na assistência pós-operatória é necessária uma abordagem específica, não somente com drenagem linfática, mas, também, com a manobra de Well, a terapia física complexa (TFC), o uso de bomba pneumática e taping linfático e compressivo.

O lipedema tratado conservadoramente pelo profissional de Saúde Estética como uma afecção estética, utilizando recursos como mesoterapia, intradermoterapia pressurizada, radiofrequência (com temperaturas elevadas nos casos que apresentem fibrose e inflamação latente), endermologia com pressão negativa acima de 100 mmHg, criolipólise, massagem modeladora entre outros, pode não melhorar o aspecto inestético e até piorar o quadro inflamatório e as fibroses.

Uma excelente base para o tratamento conservador é a associação terapêutica: drenagem linfática manual, laser de baixa intensidade no comprimento de onda do infravermelho (808 – 904nm), taping linfático, liberação de fáscia superficial e profunda associados à dieta anti-inflamatória, atividade física de baixo impacto, utilização de plataforma vibratória (baixa frequência – 20 Hz) e meditação. Outros recursos da eletroterapia podem ser utilizados, estes serão indicados e com a dosimetria adequada à cada caso.

É interessante combinar o tratamento com a suplementação de selênio, magnésio, vitamina D, vitamina C, curcumina, extrato seco de castanha-da-índia, extrato seco de centella asiática, rutina, pinus pinaster, citrus cenesis, dimples e piperina. Estes devem ser indicados e prescritos por profissionais que dominem essa área de conhecimento e em doses especificas, após avaliação e anamnese.

Concluindo: o lipedema deve ser tratado por profissionais capacitados para essa assistência e, principalmente, que enxerguem a mulher que sofre com o problema não como “alguém com pernas gordas”, mas como uma paciente que necessita de orientação, cuidados adequados e estratégias individualizadas de tratamento com atenção interdisciplinar.

A Saúde Estética se faz muito importante, mas… não faz absolutamente nada sozinha!


Referências:

Kruppa P, Georgiou I, Biermann N, Prantl L, Klein-Weigel P, Ghods M. Lipedema—Pathogenesis, Diagnosis, and Treatment Options. Deutsches Ärzteblatt International | Dtsch Arztebl Int 2020; 117: 396–403

Wolf, S.; Deuel, J.W.; Hollmén, M.; Felmerer, G.; Kim, B.-S.; Vasella, M.; Grünherz, L.; Giovanoli, P.; Lindenblatt, N.; Gousopoulos, E. A Distinct Cytokine Profile and Stromal Vascular Fraction Metabolic Status without Significant Changes in the Lipid Composition Characterizes Lipedema. Int. J. Mol. Sci. 2021, 22, 3313.

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Felmerer G, et al. Increased levels ofVEGF‑C and macrophage infltration in lipedema patients without changes in lymphatic vascular morphology. Scientific Reports | (2020) 10:10947

Reich-Schupke, S. et al. S1 guidelines: lipedema. JDDG 15, 758–767. https://doi.org/10.1111/ddg.13036 (2017). 3

Torre, Y. S., Wadeea, R., Rosas, V. & Herbst, K. L. Lipedema: friend and foe. Hormone Mol. Biol. Clin. Investig. 33

Amato, Alexandre Campos Moraes et al. Tradução, adaptação cultural e validação do questionário de avaliação sintomática do lipedema (QuASiL). Jornal Vascular Brasileiro [online]. 2020, v. 19

Amato A,  Benitti D. (2019). Lipedema.

Amato ACM, Markus DV, Santos RV. Lipedema associado a obesidade, linfedema e insuficiência venosa: relato de um caso. Diagn Tratamento. 2020;25(1):4-8

Rapprich S, Baum S, Kaak I, Kottmann T, Podda M. Treatment of lipoedema using liposuction: Results of our own surveys. Phlebologie – Stuttgart. 2015;44(3)

Paula França é fisioterapeuta pós-graduada em Fisioterapia Dermatofuncional e em Fisioterapia em Oncologia e Unidade de Terapia Intensiva. Especialista em atendimentos pré, trans e pós-operatório de cirurgia plástica estética reparadora, cirurgia vascular e afecções tegumentares de pacientes oncológicos. Conta com ampla experiência em atendimento de pacientes com FEG, lipedema e linfedema. Instagram @_drapaulafranca

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