Tirzepatida: da revolução metabólica aos riscos do uso indiscriminado e do mercado paralelo

A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro®, foi aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration) em 2022 e rapidamente se consolidou como um dos fármacos mais relevantes no controle do diabetes tipo 2 e na redução de peso. Ensaios clínicos de fase 3 demonstraram perda de peso média significativa (de até 20%) em pacientes com obesidade  quando associada a protocolos estruturados, com adequação nutricional e prática regular de atividade física. Além dos efeitos no peso corporal, evidências apontam benefícios consistentes sobre o metabolismo, o controle glicêmico e a redução de marcadores inflamatórios sistêmicos.

Monopólio de fabricação

Globalmente, a tirzepatida (Mounjaro® e marcas relacionadas) ocupa posição de liderança no segmento, representando uma parcela significativa da receita de sua fabricante, com vendas de cerca de 10 bilhões de dólares em apenas três meses, segundo dados públicos. Sem concorrentes diretos atualmente, a tirzepatida mantém controle absoluto sobre o setor, consolidando um monopólio que influencia preços, estratégias comerciais e distribuição.

Isso levanta um alerta, para possibilidade de uso de forma irresponsável. O que estamos vendo é um medicamento extremamente potente sendo transformado em atalho. Isso é perigoso. A tirzepatida não é, e nunca foi, um recurso para ser usado sem critérios.

É fundamental destacar que o principal fator de risco não reside no fármaco em si, mas na forma como ele vem sendo utilizado. Trata-se de uma substância potente, com mecanismos complexos de ação, que não deve ser empregada como solução rápida ou sem critérios clínicos rigorosos. O uso fora de protocolos validados compromete a segurança do paciente e a previsibilidade dos resultados.

Avanço do mercado clandestino no Brasil
Paralelamente ao crescimento da demanda global, observa-se no Brasil o avanço de um mercado clandestino envolvendo a tirzepatida. Operações policiais identificaram laboratórios improvisados, clínicas irregulares e influenciadores digitais envolvidos na produção, comercialização e promoção de versões falsificadas do medicamento. As apreensões de bens de alto valor, incluindo aeronaves, veículos de luxo e relógios, evidenciam a magnitude financeira desse mercado paralelo.

O risco sanitário associado a essa prática é elevado. Produtos fora da cadeia regulada podem conter dosagens incorretas, contaminantes microbiológicos ou sequer apresentar o princípio ativo, expondo o paciente a eventos adversos graves. O uso dessas substâncias configura, na prática, uma exposição a materiais sem controle de qualidade, rastreabilidade ou validação farmacotécnica.

Perigo decorrente de uso inadequado
Outro sinal de alerta diz respeito ao uso do medicamento sem acompanhamento médico adequado, fato associado a riscos clínicos relevantes. Evidências apontam para perda significativa de massa magra em parte dos pacientes, especialmente quando não há suporte nutricional adequado e estímulo à prática de exercícios. Além disso, a interrupção abrupta do tratamento, sem estratégia de manutenção, favorece a recuperação de gordura corporal.

Outros riscos incluem hipoglicemia, distúrbios gastrointestinais, desidratação, deficiência de micronutrientes e falha terapêutica. A tirzepatida promove uma importante “janela de oportunidade metabólica”; no entanto, sem intervenção estruturada em dieta, sono e atividade física, seus efeitos tendem a ser transitórios.

Potencial terapêutico e limitações
Para além do emagrecimento, a tirzepatida demonstra potencial terapêutico em múltiplos contextos metabólicos. Estudos apontam benefícios em doenças hepáticas metabólicas, resistência insulínica, síndrome metabólica e investigações exploratórias avaliam seu papel em condições inflamatórias sistêmicas e aplicações em oncologia metabólica.

Apesar desse cenário promissor, é imprescindível reforçar que nenhum benefício é plenamente sustentado sem acompanhamento médico contínuo e mudanças consistentes no estilo de vida. Trata-se de uma ferramenta terapêutica de alto impacto, mas que exige prescrição responsável, monitoramento contínuo e adesão do paciente às orientações multiprofissionais.

Impactos econômicos e sociais
A consolidação da tirzepatida como produto de alto valor comercial impacta toda a cadeia farmacêutica e assistencial. A posição dominante no mercado, associada às estratégias agressivas de marketing digital, aumenta a exposição do público leigo às promessas irreais e reduz a percepção de risco.

Com monopólio consolidado e ausência de concorrentes, a tirzepatida se mantém como a única opção potente desse tipo no mercado, reforçando a importância de cautela, supervisão médica e segurança do paciente. Ele deve entender que não existe atalho seguro: acompanhamento médico, estilo de vida adequado e atenção à procedência do medicamento são fundamentais para qualquer resultado efetivo e seguro.

Nesse contexto, a responsabilidade dos profissionais da Saúde é central. Cabe orientar, educar e proteger o paciente, promovendo decisões terapêuticas baseadas em evidência científica, ética clínica e segurança sanitária. Influenciadores que estimulam o uso sem respaldo técnico contribuem para a desinformação e ampliam o risco de eventos adversos.

Diante desse cenário, torna-se indispensável reforçar a necessidade de verificação da procedência dos produtos, exigindo nota fiscal, rastreabilidade e aquisição por canais regularizados. Ofertas de baixo custo em redes sociais, promessas de resultados rápidos e ausência de prescrição formal devem ser encaradas como sinais de alerta.

 Considerações finais
A tirzepatida representa um avanço significativo na terapêutica metabólica contemporânea. No entanto, seu uso exige rigor técnico, supervisão médica contínua e compromisso com a segurança farmacológica e do paciente. Não existem soluções seguras fora de protocolos clínicos bem estruturados, nem atalhos sustentáveis para resultados de longo prazo.

Para que seus benefícios sejam plenamente alcançados, é indispensável que o uso da tirzepatida esteja sempre associado a um plano terapêutico individualizado, monitoramento clínico regular e intervenções consistentes no estilo de vida, preservando o princípio fundamental da prática em Saúde: primum non nocere (primeiro, não causar dano).

Médico graduado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com título de Especialista em Medicina Legal e Perícias Médicas. Tem formação em Geriatria, Nutrologia, Medicina Funcional, Fisiologia Hormonal e Oncologia Integrativa; é coordenador do Ambulatório de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital Regional de Betim/MG; professor universitário e de pós-graduação. Diretor da Sociedade Brasileira de Medicina da Longevidade (SBML) e da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade (SBEMO), entre outras qualificações.

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