Estética decolonial: acesso aos cuidados com a pele negra é mais restrito devido à falta de especialização

Segundo o Relatório Forces of Beauty, publicado no segundo semestre do ano pela Organização Internacional DREAM (Driving Racial Equity in Aesthetic Medicine), cerca de uma em cada quatro mulheres negras, latinas e multirraciais reconhecem os padrões de beleza da sociedade como racistas.

Além do agravante racial, a relação feminina com a estética também exerce forte influência no bem-estar delas. De acordo com a DREAM, aproximadamente96% das entrevistadas afirmam que a autopercepção da beleza influencia diretamente na forma como se sentem. Esse desafio é ainda maior entre mulheres negras que, muitas vezes, não se veem representadas em campanhas publicitárias ou não encontram tratamentos estéticos específicos para a pele preta. 

pesquisa Forces of Beauty ainda mostrou que, no caso de mulheres negras, o acesso aos tratamentos estéticos é mais restrito devido à falta de especialização e treinamento adequado de profissionais da saúde com a pele preta. No Brasil, apesar da escassez de consultórios que atendem as especificidades da derme, ainda há profissionais que se posicionam a frente da denominada estética decolonial, conceito que questiona a imposição de padrões coloniais de beleza e resgata práticas pensadas para corpos e peles negras.

Oferecer um atendimento estético inclusivo para pessoas negras é unir conhecimento técnico, sensibilidade e respeito à história e às especificidades dessa pele. Isso significa escolher ativos, tecnologias e técnicas que evitem riscos de hiperpigmentação e irritação, adaptar protocolos para cada paciente e, principalmente, ouvir suas dores, incômodos e expectativas. Inclusão não é apenas abrir a porta para receber pessoas negras; é garantir que cada etapa do atendimento seja pensada para elas, desde a avaliação até o resultado final. 

Eu, que atuo nessa área há 10 anos em meu consultório em Salvador, compreendo que essas pessoas, ao escolherem profissionais especializados, não apenas garantem resultados de excelência, mas também inspiram outras pessoas negras a buscarem esse cuidado, ajudando a quebrar mitos e a ampliar a valorização da estética inclusiva. 

Entendo que minhas clientes, muitas da agenda artística, por exemplo Tarsila Alvarindo, Val Benvindo e Najara (NBlack), se sentem acolhidas e reforçam arepresentatividade que os cuidados com a pele preta trouxeram para a autoestima. E esse movimento iniciado por celebridades busca agregar valor e identidade à imagem, mostrando às diferentes gerações, que é possível cuidar da pele negra de forma correta e segura.  E meu foco é sempre oferecer segurança, eficácia e resultados personalizados. É gratificante ver como cada vez mais mulheres buscam um cuidado especializado e respeitoso para sua pele. 

Em um cenário onde51% das mulheres negras alegam que o “ideal” de beleza se origina nos membros da própria família, gosto de destacar como a estética é uma ferramenta singular de transformações e reencontro com a ancestralidade. Nesse contexto,  os cuidados com a pele passam a ocupar, independentemente de em qual grupo estão inseridas, um lugar próprio de afirmação, identidade, resistência e memória coletiva. Assim, eu vejo a Estética como uma ferramenta potente de transformação da autoestima. Quando a pessoa sente que seu rosto ou corpo está sendo cuidado com conhecimento e valorização, ela se reconhece de outra forma no espelho. A representatividade entra como um pilar essencial nesse processo: quando minha paciente percebe que estou preparada para cuidar da sua pele e que também me reconheço nela, isso cria uma conexão que vai muito além de qualquer procedimento, é um cuidado que reafirma identidade e pertencimento.

Biomédica esteta e especialista em pele preta.

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