A gordura que não emagrece: por que perder peso nem sempre resolve

Em um avanço científico que promete remodelar a compreensão sobre como o corpo armazena e utiliza energia, pesquisadores da Universidade de Toulouse, na França, identificaram uma nova função para a HSL (Lipase Sensível a Hormônios), proteína já conhecida por participar da quebra de gordura. O estudo, publicado em novembro de 2025 na revista científica Cell Metabolism, revela que, além da atuação metabólica clássica, a HSL exerce um papel essencial dentro do núcleo das células adiposas, ajudando a manter o tecido gorduroso saudável e funcional.

Essa descoberta amplia nossa visão sobre o metabolismo e mostra como condições como a obesidade e a lipodistrofia podem compartilhar mecanismos de desequilíbrio semelhantes, já que a lipodistrofia, apesar do baixo percentual de gordura, também se comporta como um quadro de obesidade metabólica.

Nós sempre falamos da quantidade de gordura corporal, mas quase nunca da qualidade dela. Sabemos que a gordura também precisa estar saudável para cumprir suas funções. E a pesquisa da Universidade de Toulouse valida essa perspectiva de forma contundente.

A recente compreensão do papel da HSL no núcleo das células de gordura tem implicações profundas para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas. Atualmente, os tratamentos para obesidade e lipodistrofia são frequentemente focados em gerenciar a quantidade de gordura, seja reduzindo-a através de dieta, exercício e medicamentos para obesidade, ou tentando restaurá-la em lipodistrofia. No entanto, o estudo sugere que o foco deve mudar para otimização da função e saúde do tecido adiposo.

Os pesquisadores também descobriram que o nível de HSL no núcleo é regulado pela adrenalina, um hormônio do estresse. Além disso, eles observaram que, em indivíduos obesos, os níveis de HSL no núcleo estão elevados. Essa elevação pode ser uma tentativa do corpo de compensar a disfunção do tecido adiposo, ou pode contribuir para a patologia. Esta descoberta muda nossa compreensão de como as células de gordura funcionam e abre novas frentes para o tratamento de doenças metabólicas.

A obesidade é uma epidemia global que afeta centenas de milhões de pessoas e é um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, ela está intrinsecamente ligada a uma série de comorbidades graves, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, certos tipos de câncer e problemas articulares.

Em contrapartida, a lipodistrofia, condição rara, mas igualmente devastadora, é marcada pela perda anormal de gordura, levando a um acúmulo ectópico de lipídios em órgãos como fígado e pâncreas, resultando em resistência à insulina e diabetes precoce, entre outras complicações metabólicas severas. A compreensão de que essas duas condições podem ter um elo molecular comum representa um salto gigantesco na busca por terapias mais eficazes e direcionadas.

A dupla vida da HSL: do metabolismo energético à regulação nuclear
Por décadas, a proteína HSL tem sido um nome familiar no campo da bioquímica e do metabolismo. Conhecida desde a década de 1960, sua principal função identificada era a de uma enzima que reside na superfície das gotículas lipídicas dentro das células de gordura, onde atua como uma “tesoura molecular”, quebrando os triglicerídeos armazenados em ácidos graxos livres e glicerol. Esse processo é fundamental para fornecer energia ao corpo em momentos de necessidade, como durante o jejum ou o exercício físico. A HSL é, portanto, um ator central na mobilização de gordura.

No entanto, a equipe de pesquisadores liderada por Jérémy Dufau e Dominique Langin, do Instituto de Doenças Metabólicas e Cardiovasculares (I2MC) da Universidade de Toulouse, desenterrou uma faceta completamente nova e inesperada dessa proteína. Eles descobriram que a HSL não se limita à periferia das gotículas de gordura; uma parte significativa dela migra para o núcleo das células adiposas. E é lá, no centro de comando da célula, que ela assume um papel regulatório crucial.

Conhecemos a HSL como uma enzima mobilizadora de gordura, mas seu papel no núcleo é completamente inesperado e primordial para manter a saúde do tecido adiposo. Dentro do núcleo, a HSL interage com o DNA e com as proteínas reguladoras, influenciando a expressão gênica e, por sua vez, a capacidade da célula de gordura de funcionar adequadamente. Essa função nuclear é essencial para a manutenção da homeostase do tecido adiposo, garantindo que ele possa armazenar e liberar gordura de forma eficiente, responder a sinais hormonais e evitar inflamações. Em outras palavras, a HSL nuclear é um maestro que orquestra a “saúde” da gordura.

A descoberta mais surpreendente revelou que, partindo da premissa de que a HSL é uma enzima que quebra gordura, a expectativa era que a remoção dessa proteína levasse a um acúmulo de gordura e, consequentemente, à obesidade. Pela lógica, se a enzima que degrada a gordura está ausente, a gordura deveria se acumular. No entanto, quando os cientistas removeram a HSL do organismo de camundongos, os animais não desenvolveram obesidade. Pelo contrário, eles manifestaram lipodistrofia severa, concluindo que a remoção da HSL promove o equilíbrio necessário para um tecido adiposo saudável. Os camundongos perderam gordura de regiões onde ela deveria estar presente, como sob a pele, e, ao mesmo tempo, acumularam gordura em órgãos internos, como o fígado e os músculos.

Os animais apresentaram resistência à insulina, níveis elevados de glicose no sangue (hiperglicemia), triglicerídeos altos e inflamação sistêmica, um perfil metabólico que espelha o de pacientes humanos com lipodistrofia e que é tão ou mais prejudicial à saúde quanto as complicações da obesidade. Isso demonstra que a HSL nuclear não é apenas um regulador da quantidade de gordura, mas um determinante crítico da sua qualidade e funcionalidade. Sem ela, o tecido adiposo perde sua capacidade de atuar como um reservatório seguro e saudável de energia, levando a um “derramamento” de gordura para outros órgãos e à consequente disfunção metabólica. Tais resultados demonstram por que algumas pessoas com obesidade são “metabolicamente saudáveis”, ou seja, não desenvolvem as complicações típicas da obesidade, enquanto outras, mesmo com peso corporal normal, podem ter disfunção metabólica. Por isso, no atendimento clínico de pacientes, reforço muito a importância da saúde e do bem-estar e não o peso na balança. A gordura não é apenas um tecido inerte de armazenamento de energia ou um vilão a ser eliminado. É um órgão endócrino complexo e dinâmico, essencial para a saúde geral do corpo. Quando esse tecido está doente, seja por excesso ou por falta, as consequências são sistêmicas e graves. É fundamental cuidar da saúde integral.

Médica com especialização em endocrinologia e metabologia, PHD pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em emagrecimento saudável.

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