Microagulhamento e o Filtro solar

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roller

Uma polêmica muito grande vem se formando em relação ao uso do filtro solar e a técnica de microagulhamento. Já escrevi outras vezes sobre a técnica,    mas farei uma pequena revisão antes de prosseguir.

Microagulhamento ou Indução percutânea de colágeno é uma das técnicas que vem despertando interesse da população e da comunidade científica e faz uso de um equipamento chamado roller.

A técnica é descrita por Fernandes (2006) como a utilização de um sistema de microagulhas aplicado à pele e tem como objetivo gerar múltiplas micro puncturas, o que provoca, além do aumento da vasodilatação, a estimulação de diversos tipos de fatores de crescimento e o aumento da permeação dos ativos, conhecido como Sistema de acesso transdermal de ingrediente (SATI) ou drug delivery.

Em diversos artigos na literatura, é nítida e destacada a informação de que não é recomendado o uso do filtro solar antes de 4 horas após a intervenção. Isso porque os poros, os microcanais causados pelo equipamento, levam um tempo (conforme descrito no artigo de Kaluri, 2011) para se fecharem por completo.

Existem basicamente dois tipos de filtros: Os orgânicos (chamados de químicos) e os inorgânicos (chamados de físicos), que são os que absorvem a radiação solar e os que a refletem respectivamente, apesar da literatura citar filtros que fazem ambas as ações.

Observem o que esses autores falam sobre o filtro solar: É importante ressaltar que o agente fotoprotetor deve permanecer na superfície da pele, impregnar-se no estrato córneo e criar uma barreira contra a radiação UV, protegendo a pele sem penetrá-la para que não ocorra uma exposição sistêmica a essas substâncias. O estrato córneo contribui para limitar a penetração cutânea de substâncias orgânicas de alta e baixa massa molecular (KLINUBOL; ASAWANONDA; WANICHWECHARUNGRUANG, 2008)

Sem contar outros estudos feitos sobre a permeação do filtro solar e suas consequências e uma reportagem em revista popular, que levantou a hipótese de que os filtros poderiam causar obesidade e até câncer.

Dados da literatura mostram que diversos filtros solares, dentre eles a 3 benzofenona (3-BZ), o octilmetoxicinamato (OMC) e o salicilato de octila (OS), penetram através do estrato córneo e são capazes de gerar espécies reativas de oxigênio (EROs) no citoplasma dos queratinócitos nucleados na epiderme. (HANSON; GRATTON; BARDEEN, 2006).

Janjua et al (2004) estudaram, a partir de experiências in vivo, a permeação dos filtros orgânicos  na pele e seus efeitos nos níveis dos hormônios reprodutivos em  seres humanos. Neste trabalho, concluiu-se que há uma penetração substancial destes filtros para o interior do nosso organismo. Após a aplicação destes filtros, os mesmos foram detectados tanto na urina quanto no sangue dos voluntários. Porém, nenhuma alteração nos níveis do hormônio sexual feminino foi observada dentro do tempo fixado para controle.

Flor et al (2007) relatam que a penetração dos filtro solares é um problema e que estudos estão sendo desenvolvidos para diminuir essa penetração e efeitos adversos com hipersensibilização da pele e outras reações, sendo  a utilização de esferas de silicone que dificultam a penetração das  moléculas de filtros solares na pele uma delas.

Setterfield (2013) cita num capítulo de seu livro todas as substâncias a serem evitadas com uso do microagulhamento e é categórico em dizer que “Nunca aplique o filtro solar após o microagulhamento, ele somente deve ser aplicado no dia seguinte”. Ainda cita que componentes como PABA, Oxybenzeno, octocrylene podem ser potencialmente irritantes a pele recém-lesionada e também não descarta o risco de cânceres desenvolvidos após a utilização desses princípios.

Visto que a técnica aumenta a permeação dos ativos variando segundo a literatura de 40 a 500% de aumento, é nítido que não queremos permear um filtro solar, pois essa não é sua função – por isso não recomendo o uso do mesmo num intervalo de pelo menos 4 horas após a aplicação.

Outro fator importante é que, hoje, muitos filtros possuem ativos calmantes como o calmskin®, que acalma a pele, e isso é extremamente contra indicado após o procedimento, colocando em riscos os benefícios da técnica. Não podemos esquecer também dos filtros com pigmentos, fragrâncias, corantes e outros afins, que podem ser um fator extremamente importante na sensibilização dessa pele.

Saliento que sou extremamente a favor do uso do filtro e o mesmo deve ser passado por todos, todos os dias, independente de dias ensolarados ou nublados, só estou ressaltando a necessidade desse intervalo em função do mecanismo de ação da técnica.

Como solucionar o problema então? Simples, marque as sessões de microagulhamento no período de final da tarde e noite, assim a sua cliente não correrá nenhum risco (por estar sem filtro solar) e você evitará complicações como acne cosmética, hipersensibilização da pele, entre outras.

Não encontrei nenhuma pesquisa científica que oriente o filtro após a técnica, pelo contrário, todos os artigos são unânimes em relação a este assunto, portanto é a razão de minha opinião! Filtro solar sim, mas nunca após o roller.

Até a próxima!

  1. Fernandes D. Minimally invasive percutaneous collagen induction. Oral Maxillofac Surg Clin North Am. 2006;17(1):51-63
  2. Setterfield, l. The concise guide to dermal needling (medical edition).1 ed. Virtual beaty corporation ltda.2011
  3. Setterfield, l. The concise guide to dermal needling ( Expanded medical edition). Virtual beaty corporation ltda.2013
  4. Klinubol, p.; asawanonda, p.; wanichwecharungruang, S.P. Transdermal penetration of UV filters. Skin Pharmacology and Physiology, Basel v.21, p.23-29, 2008
  5. Janjua, N. R.; Mogensen, B.; Anderson, A. M.; Petersen, J. H.; Henriksen,   M.; Skakkebaek, N. E.; Wulf, H. C.; The Journal of Investigative Dermatology 2004, 123, 57
  6. Flor, J, Davolos, M. J. Protetores Solares. Quim. Nova, Vol. 30, No. 1, 153-158, 2007.
  7. Hanson, k. m.; gratton, e.; bardeen, C. J. Sunscreen enhancement of UVinduced reactive oxygen species in the skin. Free Radical Biology & Medicine, New York, v. 41, p. 1205-1212, 2006

 

Fonte Foto: http://microneedlingskin.com/wp-content/uploads/2014/01/microneedle2.jpg

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Mariana Negrão
Mariana Negrão é fisioterapeuta com 11 anos de experiência e diversas pós-graduações entre elas a de Fisioterapia Dermato Funcional e de Docência no Ensino Superior. Docente de diversas pós-graduações de fisio dermato e estética e Docente do curso de Bacharelado em Estética da Universidade Ahembi Morumbi e do Curso de Graduação em Visagismo da Universidade Anhembi Morumbi. Autora do blog Pérolas da Estética.

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