Carboxiterapia

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Dióxido de carbono/uso terapêutico: A infiltração percutânea de CO2 no tecido celular subcutâneo, através de agulhas, não só melhora a circulação sanguínea nos tecidos, como aumenta a concentração local de oxigênio. Já no tecido subcutâneo, é o aumento da temperatura local que determina um efeito lipolítico, que não é encontrado quando se utiliza outras misturas gasosas.

Uma revisão sistemática da literatura feita por Brockow et al(2000),confirmou a eficácia clínica dessa alternativa terapêutica. O baixo custo, o pequeno número de contraindicações formais (doentes sob anticoagulação, diástases hemorrágicas) e o baixo índice de complicações fatais fizeram com que a técnica ganhasse popularidade, tornando-a cada vez mais utilizada (Costa et al, 2011).

Através da ação básica da aplicação do gás, a ação farmacológica, a aplicação do CO2 aumenta a bio-disponibilidade do oxigênio, pois facilita a dissociação do O2 pela hemoglobina (potencialização do efeito Bohr).

Alguns efeitos fisiológicos importantes na pele:

  • Vasodilatação da microcirculação
  • Gatilho da resposta inflamatória do organismo ao CO2
  • Resposta hemodinâmica responsável pelo aumento do fluxo sanguíneo nos tecidos
  • Resposta vascular: aumento da permeabilidade capilar (alargamento dos poros da parede vascular)
  • Aumento da síntese do óxido nítrico (estimulando a formação de novos vasos sanguíneose aumentando o fluxo sanguíneo tecidual)

Além de tudo isso, há uma importante resposta celular provocada pela distensão tecidual provocada pela pressão de penetração do gás estimulando a fibrinogenese: indutora da remodelação de fibras elásticas colágenas e reticulares recuperando a elasticidade e resistência da pele.

Alguns efeitos fisiológicos importantes no tecido adiposo:

  • Fragilização da parede celular
  • Pela potencialização do efeito Bohr, o aumento do oxigênio no tecido adiposo desencadeia o processo de oxidação da gordura, provocando a queima de lipídios do adipócito (Abramo, 2010)
  • O trauma causado pela intensidade  da velocidade do fluxo de infusão do gás contra a membrana do adipócito provocando a sua ruptura (Balk e Yilmaz,2011)

Fisiologia da pele:

  • A integridade da pele e resistência são mantidas pelas junções celulares fornecidas pelos desmossomas e pela fibronectina responsáveis pela coesão das células
  • A derme também é formada por glicosaminoglicanos e a fibronectina
  • A epiderme não possui vasos sanguíneos, são as papilas que aumentam a superfície de contato entre as duas camadas, facilitando a nutrição das células epidérmicas pelos vasos sanguíneos da derme
  • Os vasos linfáticos localizam-se na camada reticular da derme
  • A perda da lisina, componente da elastina, deforma e torna menos flexível a fibra elástica
  • Os melanócitos com a senescência aumentam de tamanho, por isto as manchas senis

Como a pele responde ao tratamento com carboxiterapia

Alguns fatores (descritos acima) são essenciais para que possamos obter os melhores resultados terapêuticos, entre eles o conhecimento da arquitetura e funcionalidade da pele e a interação do CO2 com esse órgão. Primeiro, temos que entender que a pele não responde a números exatos ou pré-definidos e que cada procedimento terá uma resposta distinta, conforme as condições estruturais ou morfológicas inerentes de cada paciente. A percepção das reações cutâneas talvez seja a forma mais fiel para prosseguirmos um tratamento, independente do recurso que estamos empregando, mas em especial a carboxiterapia. Um fator determinante para darmos prosseguimento à terapêutica diz respeito ao manuseio e introdução da agulha, que muitas vezes está fundamentada em protocolos generalistas, em especial quanto a sua inclinação em relação a pele, sugerindo ângulos definidos que desconsideram as possíveis diferenças cutâneas entre os pacientes submetidos à carboxiterapia.

Queremos ressaltar que a constituição anatômica da pele pode apresentar morfologia totalmente irregular nas suas principais camadas (epiderme e derme), o que justifica a indicação da carboxiterapia na tentativa de reorganização tecidual. Por exemplo, citamos as papilas dérmicas com diferenças de profundidade e arquitetura entre elas ou a própria hipoderme com espessura e constituição distinta em distintas regiões do corpo e face. Essas sao algumas das razões que a punturação da agulha nunca deverá ser a mesma, considerando diferentes clientes além de cada região do corpo. Estamos falando de um procedimento invasivo, com introdução de um agente gasoso e, portanto não basta um conhecimento básico, ao contrário, esse deve ser profundo e abrangente, tanto nos aspectos de ação do CO2 nos tecidos como da própria fisiologia da pele.

Muitos clientes que indicamos a carboxiterapia são decorrentes das patologias que afetam a pele como sequela de acne, flacidez, fibrose, psoríase entre outros, além das ações lipolíticas cujo ação da carboxiterapia está direcionada ao tecido subcutâneo. Ao falar de pele, estamos fazendo referência a um tecido cuja espessura atinge em média 2,5 mm e que a aplicação deve ser feita com muita precisão, já que a agulha geralmente mede em torno de 2 cm de comprimento. Provavelmente considerando o comprimento da agulha e a espessura da pele, além das imperfeições da mesma, fica impossível estabelecer ou quantificar de modo absoluto a angulação da agulha, sob risco de ultrapassarmos as camadas da pele e atingirmos o tecido subcutâneo, perdendo todo o efeito previamente proposto ou imaginado.

Somente através da prática exaustiva, acompanhando cada resultado ou manifestação individualizada, além do estudo aprofundado, teremos chances de obter resultados seguros e eficazes. Não basta aplicar a carboxiterapia e acreditar que a simples visualização do gás penetrando e se elevando no interior da pele seja suficiente para acreditar que já seja um expert nesta terapia.

Outro fator importante é a velocidade estabelecida do fluxo de infusão do gás que penetrará nos diferentes tecidos. A pele, local em que encontramos uma série de patologias, somados aos efeitos bioquímicos do gás, proporciona um efeito mecânico gerado, conhecido como descolamento dérmico. Para isto, a intensidade do descolamento dérmico deve ser proporcional á velocidade do fluxo de infusão de gás nos tecidos e quanto maior a velocidade desse fluxo, maior será a resposta de descolamento do tecido. Talvez esse fator tenha levado a me expressar com muita propriedade sobre o fato de não existir um aparelho melhor ou pior que outro, mas precisamos de um aparelho que permita produzir uma velocidade compatível com os objetivos propostos, além de um profissional que entenda todo esse processo.

Como comprovamos esse processo? Primeiro: não se pode quantificar velocidade do fluxo matematicamente, somente através da visualização deste descolamento, que é possível através de uma isquemia temporária e rápida, que acontece exatamente quando se produz este efeito mecânico de descolamento. Muitas promessas de máquinas ou técnicas indolores podem ser sinônimos de que o procedimento esteja completamente incorreto. O descolamento é um procedimento dolorido e se a máquina não promove dor, provavelmente sua velocidade de emissão do fluxo é fraca.

Pontos importantes sugeridos para uma boa aplicação da carboxiterpia para uma remodelação tecidual:

  1. Aplicação superficial, plano dérmico, agulha paralela à pele, bisel voltado para a superfície da pele, somente a ponta introduzida no tecido; o posicionamento da agulha permite a disjunção e ruptura segura das fibras dérmicas.
  2. Técnica ponto-a-ponto, com intervalos pequenos, intervalo médio de pelo menos 1cm e bisel para cima. Observar área de branqueamento (isquemia transitória), seguida de hiperemia (processo inflamatório).
  3. A intensidade do descolamento dérmico é proporcional a velocidade do fluxo de infusão de gás nos tecidos
  4. A quantidade de punturas pode ser variável, dependendo da extensão da alteração, tipo de alteração e propósito do tratamento
  5. A quantidade de CO2 aplicado por ponto não pode ter um padrão único. Ela depende da resistência do tecido e do local da aplicação,
  6. Visualizar a distensão do tecido é mais importante que considerar o volume de gás a ser injetado.

obs: a patologia interfere na escolha da velocidade do fluxo

Referências Bibliográficas

1-Balk O, Yilmaz M. Does carbon dioxide therapy really diminish localized adiposities? Asthetic Plast Surg 2011 Aug,35(4):470-4.

2-Brockow T, Hausner T, Dillner A, Resch KL. Clinical evidence of subcutaneous CO2 insufflations: a systematic review. J Altern Complement Med. 2000;6(5):391-403.

3-Diji A, Greenfield AD. The local effect of carbon dioxide on uman blood vessels. Am Heart J. 1960;60:907-14.

4- Costa CS, Otoch JP, Seelaender MC, das Neves RX. Cytometric evaluation of abdominal subcutaneous adipocytes after percutaneous CO2 infiltration. Rev Col Bras Cir. 2011 Feb;38(1):15-23.

5- Nach R, Zandifar H, Gupta.Subcutaneous carboxytherapy injection for aesthetic improvement of scars. Ear Nose Throat J. 2010 Feb; 89(2):64-6.

6- Brandi C, D’Aniello C Carbon dioxide therapy in the treatment of localized adiposities:clinical study and histopathological correlations. • Aesthetic Plast Surg. 2001 May-Jun;25(3):170-4.

7- Georgia S. K. Lee.Carbon Dioxide Therapy in the Treatment of Cellulite: An Audit of Clin. Practice Aesth Plast Surg DOI 10.1007/ s00266-009-9459-0

8- Valéria Campos et cols.Carboxytherapy for gynoid lipodystrophy treatment : The Brazilian experience. Journal American Academy Dermatology 2007 P2900 AB196.

9- Brandi C, Grimaldi L, Nisi G.The role of carbon dioxide therapy in the treatment of chronic wounds. Brafa A  In Vivo. 2010 Mar-Apr;24(2): 223-6.

10- Varlaro V., Manzo G., Mugnaine F. Carboxytherapy: effects on microcirculation and its use in the treatment of severe lymphedema A review. ACTA PHLEBOL 2007;8:000-000

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