Avaliação gratuita: Uma reflexão

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Hoje resolvi escrever sobre esse assunto que me gera certo desconforto, mas acredito ser totalmente necessária sua reflexão. Por que nós profissionais da beleza, em sua imensa maioria, não cobramos a avaliação? Aposto que muitos vão pensar, alguns não saberão a resposta e outros tantos vão dizer: “porque todo mundo faz isso, se eu cobrar ninguém vai querer fazer”, “já está difícil sem cobrar, imagina cobrando”, entre outras.

Gostaria apenas que parássemos alguns minutos para refletirmos em algumas questões:

Qual a importância real da avaliação? Se você avaliar errado, o tratamento que você irá propor terá sucesso? De que adianta um arsenal de equipamentos e cosméticos se a pessoa não sabe avaliar adequadamente? Quanto tempo leva sua avaliação e quanto deveria durar? Você pede para seu cliente preencher algum questionário antes da avaliação? Você tem todas as informações necessárias quando inicia a avaliação? Quantos por cento do sucesso do seu tratamento você acha que a avaliação é responsável?

Complexo não? Agora vamos ver o que nossos colegas de outras profissões fazem:

Quando você marca um médico, porque está com algum sintoma, problema, ele não cobra a consulta?  Você não paga? Mesmo que seja o convênio, alguém paga essa conta. O que ele faz? Não é uma avaliação para depois prescrever o tratamento? Porque é normal eles cobrarem e nós não? Se eles avaliarem errado, darão a medicação ou tratamento errado/inadequado, da mesma forma que nós. Qual a diferença?

Quando um eletrodoméstico seu quebra, você chama o técnico e ele te cobra à visita, certo? O que ele fez? Uma consulta, uma avaliação do problema e depois te passa um orçamento, certo?

Quando você vai a um psicólogo, ele vai fazer uma avaliação, que pode durar 3 ou 4 sessões, as vezes mais, é gratuito? Você não paga por isso? Porque nós não cobramos?

Esses são apenas alguns exemplos de profissionais, existem outros tantos por ai. Veja só, sou professora da disciplina de avaliação em diversas pós-graduações e sempre insisto nesse ponto. Vamos refletir sobre a importância e todo conhecimento necessário para realizar uma anamnese adequada, vou mostrar apenas alguns pontos:

Primeiramente você precisa conhecer esse cliente, isso é feito através dos dados pessoais e todos são importantes. Desde a idade (muitas alterações estéticas estão intimamente ligadas a isso), sua ocupação (se trabalha sentada o tempo todo ou em pé o tempo todo, isso pode pior a circulação), sua história em relação à alteração estética (tem isso a quanto tempo? Começou agora? Vem piorando? Está relacionada a algum outro evento como gestação, doenças, alterações hormonais?)

Nesse momento um mapa abre na sua mente, você começa fazer relações, possíveis conexões e dessa forma começa a tentar desenhar as causas e os possíveis tratamentos e conforme o cliente vai falando e você começa a raciocinar e as formas e cores do tratamento começam a surgir na sua mente você realmente sente que nasceu para isso… É um momento único, maravilhoso. Pelo menos é assim para mim. E aos poucos você vai conhecendo o cliente, ele vai abrindo sua vida, seus incômodos, seus receios, seus medos, suas frustrações com ele, com a alteração estética, com os tratamentos anteriores realizados sem sucesso.

Nesse momento você entra com o exame físico do cliente, sim deveríamos fazer isso. Avaliar, pegar, palpar, testar, usar uma lupa, uma lâmpada de Wood, uma manta de termografia, ou seja, lá o que for que houver disponível. E você vai mostrando o que há de bom e o que pode ser melhorado, com tato, com zelo, com cuidado. Há uma vida ali, há esperança em você naquele momento e muitos de nós não se dão conta disso. Pode haver ali um desequilíbrio emocional, um distúrbio nutricional, você pode ser a última esperança de alguém. Já pensou nisso? Não… Muitos não pensam… Só pensam em vender, vender e vender.

Depois de tudo, de avaliar, de ouvir, de ver, de sentir, porque também há que sentir. Você retorna a sua mesa e raciocina. Em poucos minutos faz uso de tudo que você aprendeu: fisiologia, anatomia, cosmeto, eletro, patologia, ética, biossegurança, técnicas manuais e tudo mais que junto faz com que você seja capaz de elaborar um PLANO DE TRATAMENTO, porque protocolo é receita de bolo, é sempre igual, da mesma forma para todo mundo e você não é todo mundo, seu cliente não é igual a ninguém.

Você estudou, se aperfeiçoou, passou horas lendo, relendo, estudando, fazendo cursos livres após uma formação árdua em técnico ou tecnólogo ou bacharel, deixou de estar com seus familiares e amigos, deixou de fazer o que você gosta, de se divertir para estudar, para que? Para entregar seu plano de tratamento de graça? Para dar a chave do sucesso do tratamento, porque é isso que a avaliação é, a chave do sucesso do tratamento, assim sem mais nem menos? Para não ter a recompensa financeira que você merece? Que é sua por direito? Por quê? Não é justo. E quem é responsável por isso?

Nós. Porque nós sabemos o quanto é difícil avaliar, quanto é difícil descobrir a ponta que desenrola o novelo de lã, nós que suamos, nós que estudamos, nós que gastamos, nós que “perdemos” tempo para nos tornar profissionais dignos de fazer uma excelente avaliação. E somos nós mesmos que não valorizamos isso. Sujeitamos-nos a fazer avaliações medíocres, em tempos tão pequenos que quase fica pronta como um miojo, sem falar nas clínicas que pressionam as avaliadoras com metas a bater, nem quero entrar nesse mérito e nos sites de compras coletivas que vendem pacotes sem uma avaliação. Triste para não dizer revoltante.

Caro colega reflita. É esse o caminho que queremos seguir? O que podemos fazer para mudar isso? Só depende de nós. Vamos fazer cada um sua parte. Se ninguém der o primeiro passo, nada vai mudar. Se cada um varresse a frente da sua casa, a rua seria muito mais limpa. Deixe aqui seu comentário, compartilhe, se os clientes entenderem quão complexo é uma avaliação tenho certeza que vão encarar esse momento de outra maneira.

Grande abraço,

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