A vaidade deles!

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Eles estão, sim, mais vaidosos. Não querem andar desleixados ou com uma aparência cansada, um levantamento feito pelo Instituto Gallup/Allergan revelou que 75% dos brasileiros se preocupam em melhorar a aparência. A maioria absoluta deles afirma que gostaria de aparentar idade menor que a real. De acordo com outro levantamento, realizado pela empresa de consultoria 2B Brasil Research, 78% dos homens consideram a obtenção de um corpo esbelto um objetivo a ser atingido. Diferente da mulher, você não vai encontrar homens discutindo sobre tratamento de beleza na mesa do bar. Até porque, esse público preza por um fator muito importante, privacidade. Alguns, ainda não falam abertamente da vaidade. Para o advogado Carlos Hélio*, fazer tratamentos estéticos não é motivo de vergonha, mas discrição é importante. “Há uns três anos recorri aos tratamentos estéticos incentivado por minha mulher. Estar com uma boa aparência é fundamental no trabalho e nas relações do dia a dia. Não acho que é vergonha um homem fazer um peeling ou uma drenagem linfática. Mas não é algo que saio contando para todo mundo”, diz.

Esse assunto ainda não faz parte da rotina de alguns homens. Nada mais natural, afinal é algo que está começando a ser conscientizado. A maioria ainda recorre a tratamentos estéticos por uma necessidade física, e não por vaidade. Para o produtor de cinema Thiago Andreotti, que é adepto de tratamentos estéticos, os homens ainda se limitam, mas aos poucos isso está mudando. “Muitos homens tentam manter sua imagem de ‘homem’ e acabam de certa forma sendo ‘machistas’, só conseguem enxergar que se cuidar é ‘coisa de mulher’. Sendo assim, se limitam em serem apenas caras bem vestidos ou, muitas vezes, nem isso. Porém, acho que a cada dia aumenta a demanda de homens querendo se cuidar. Sinal de que a sociedade masculina está aumentando seu campo de visão e de vida”.

Homens que recorreram ao Botox, entraram no bisturi para atenuar um nariz ou uma barriguinha saliente ou mesmo os que engrossam a fila dos consumidores de creminhos e hidratantes, são cada vez mais comuns. Nos últimos dez anos, praticamente dobrou o número de homens que se submeteram a cirurgias plásticas no Brasil. As práticas mais usuais são a lipoaspiração nos pneuzinhos, a retirada de excesso de pele da pálpebra e a atenuação no nariz.

A maioria, inclusive, é de homens casados, e as recomendações sobre vaidade vêm da própria mulher ou namorada. “Esse papo de que beleza não vale nada é besteira, defendo a ideia de que não adianta ter algo bonito se aquilo não tem utilidade. Mas ninguém sai de casa pensando: vou encontrar um cara feio e legal”, afirma o produtor de cinema Andreotti.

A resistência dos mais renitentes em relação aos tratamentos estéticos baseia-se num preconceito cultural. Muitos temem em assumir a vaidade e assim comprometer sua masculinidade.

Diferente das mulheres, esse público fica mais satisfeito quando as alterações não são percebidas pelas pessoas que fazem parte da rotina. “Sinto que minha aparência melhora muito quando faço Botox, e geralmente apenas minha mulher percebe o resultado. Não é algo que faço para os outros, faço para mim”, afirma o advogado Hélio*.

A indústria cosmética já percebeu que esse mercado não para de crescer, prova disso, são os lançamentos de cosméticos específicos para a pele masculina. Há de tudo nesse mercado, desde cremes para combater rugas e olheiras, até um para queimar a gordura localizada no abdômen.  Estima-se que só no ano passado os produtos para a pele do homem tenham vendido cerca de 200 milhões de reais no Brasil. Claro que se comparado aos números femininos, esse dado ainda é bem inferior. Elas gastam uma média de cinco vezes mais que os homens.

O grande estímulo para os homens se cuidarem, vem da independência feminina, que trouxe, entre outras conquistas, a exigência de parceiros apresentáveis. Não basta estar bem vestido, tem que estar com tudo em cima. “Homem precisa ter uma aparência saudável, precisa se conscientizar que cuidar da estética é também cuidar da saúde. Não há nada de errado nisso. Além disso, as mulheres estão mais exigentes, afinal, se eu me cuido, não vou andar com alguém desleixado ao meu lado”, diz a bancária Allyni Torres.

Clínicas de estética para o público masculino

De olho nesta tendência, algumas clínicas estéticas começaram a surgir especialmente para eles.

Vaidade, é bom que se esclareça, nunca foi uma prerrogativa feminina. Mas os homens costumavam expressá-la de uma forma simplista. Cuidados só com os cabelos, na verdade com o corte de cabelo. Pintar, geralmente já não caia bem. Muitas vezes a vaidade se limitava a comprar uma gravata diferente, uma roupa mais ousada. Mas eles perceberam que se cuidar faz bem, não só para a autoestima, mas para a saúde, as relações comerciais e, principalmente, para a vida amorosa. De olho nisso, o mercado de clínicas voltadas para este setor cresce cada vez mais nas grandes cidades.

Enrico Damasceno Montes é um exemplo de empresário que acreditou neste mercado, proprietário do Garagem Estética Masculina, atende em média 60 clientes por dia, todos do sexo masculino. “Quando abrimos a empresa há 10 anos, o segmento masculino era muito pouco explorado no Brasil e vimos uma oportunidade de sermos pioneiros. O Garagem existe desde agosto de 2001, hoje em dia atendemos em media 50 a 60 clientes por dia nos sábados, esse número só aumenta. Hoje contamos com 21 funcionários e estamos inaugurando uma nova unidade em agosto de 2012 em São Paulo , no bairro Vila Olímpia”.

A Garagem Estética é uma clínica que oferece serviços comuns nesses ambientes, como massagens, limpeza de pele e depilação. A diferença é que o ambiente é exclusivo para o público masculino.

Montes acredita que se cuidar é fundamental nos dias atuais. “Deixou de ser um tabu e acabou virando até uma exigência da sociedade. O homem moderno tem que se cuidar”.

Uma vantagem de trabalhar com esse público é a questão da fidelização. “Acho que fidelizar o público masculino deve ser igual ao feminino, a única diferença é que o homem é mais calado ele não reclama ou elogia como a mulher, mas quando se torna cliente ele é mais fiel, pois não sai experimentando qualquer salão que abre. Por isso, muitas vezes o homem vai no mesmo barbeiro durante muito tempo”, avalia.

O Fisioterapeuta Gregório Mendes também faz parte do time de empreendedores que apostou nesse mercado, sócio-proprietário do Mr. Jardins Espaço Masculino, ele acredita  que o sucesso do empreendimento se deu devido possibilitar um ambiente exclusivo para os homens, mas com preço justo. “Hoje em dia quase todos os salões oferecem um espaço para o homem, porém na maioria das vezes é um espaço pequeno e totalmente escondido e quando são oferecidos, os serviços são  mais caros que os oferecidos para mulheres com profissionais pouco qualificados para atendimento masculino”.

Mendes acredita que o aumento da vaidade masculina é, de certa forma, consequência das mulheres. “Houve um aumento na procura de tratamentos estéticos devido à interferência feminina, pois hoje em dia as mulheres exigem homens bem mais cuidados e preocupados com a estética que os valorizam”.

Além de Mendes, outros fisioterapeutas trabalham no Mr. Jardins e oferecem serviços de estética facial, corporal e tratamento de  pós-operatório de cirurgia plástica. Mas mesmo com uma boa clientela, ele afirma que existe uma resistência por parte de muitos homens.“Ainda tem uma resistência com a estética devido ao preconceito criado por estereótipos com homens que se cuidam demais”.

O interessante desses empreendimentos, é que todo o espaço foi pensado para possibilitar o bem-estar do público masculino.  O lugar não lembra em nada um clínica comum, são pequenos detalhes que fazem toda a diferença, como o uso de cores frias, móveis rusticos e as revistas que estão disponíveis no balção.

Os homens demoraram milhões de anos para descobrir que os tratamentos estéticos, podem sim, fazer maravilhas.  A cada ano, mais de 2 bilhões são gastos no país em produtos de beleza masculinos, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec).

Não é pecado se cuidar

A evolução dos conceitos relacionados ao comportamento masculino é cada vez mais evidente. Os cuidados com a beleza comprovam que a maturidade masculina vai muito além dos padrões sociais. Cortar o cabelo e fazer a barba não são mais as únicas obrigações, existem outros cuidados com o bem-estar e aparência. Essa democratização nos cuidados com a beleza abriu espaço para o aprimoramento de técnicas que satisfaçam os homens modernos e preocupados com um visual clean.

Estima-se que o mercado da vaidade masculina movimente cerca de U$ 12 bilhões por ano no mundo. A média do tempo que os homens levam para cuidar da aparência também impressiona: cerca de 23 minutos diários.

Além das possibilidades de conquistar uma vaga melhor no mercado de trabalho, cuidar do corpo e estar em forma possibilita mais disposição. Se você der uma olhadinha em volta, vai constatar como a beleza masculina anda valorizada. Os filósofos medievais já diziam que o belo é para ser apreciado como uma manifestação divina. Não há pecado nisso.

* A pedido do entrevistado, o nome Carlos Hélio é fictício para manter sua privacidade.

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