Radiofrequência para fibrose e pós cirurgia plástica?

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Artigo escrito com a colaboração do Fisioterapeuta Alexandre Magno Delgado, residente de Fisioterapia na Saúde da Mulher (UFPE).

O processo de cicatrização se dá quando ocorre uma alteração na integridade da pele. A substituição do tecido que foi destruído por um tecido cicatricial (conjuntivo neoformado) pode acarretar, em alguns casos, o surgimento de um novo tecido de diferente estrutura e qualidade chamado fibrose, com pouca elasticidade, grande quantidade, gerando complicações. Em alguns casos, determinadas enfermidades produzem alterações no tecido colágeno que exacerbam sua quantidade e alteram sua qualidade como a esclerodermia, por uma alteração das células endoteliais e imunológica. Também neste caso encontramos tecido fibroso 1,2.

No período de pós trauma da cirurgia plástica, é possível encontrar o processo de fibrose e há diferentes possibilidades de tratamento desde prevenção a terapias manuais e agentes físicos. A radiofrequência é um recurso que vem sendo usado nos protocolos de pós-operatório das cirurgias plásticas. A base terapêutica desta modalidade é a conversão da energia eletromagnética em efeito térmico. Este tipo de calor alcança tecidos a vários centímetros de profundidade, sendo mais intenso nas camadas internas da pele. A corrente, ao passar pelos tecidos, gera ligeira fricção ou resistência, produzindo elevação térmica. Além de seus efeitos térmicos, seu campo eletromagnético produzido tem ação especifica em determinados tecidos, como a derme e o tecido colágeno 3,4, 5,6.
A radiofrequência está relacionada ao tratamento das fibroses, podendo ser aplicada precocemente desde que a sensibilidade térmica do paciente seja mensurável e que o edema não seja acentuado. A temperatura atingida, medida pelo termômetro, não deve ultrapassar 37ºC para qualquer tipo de fibrose. Durante o aquecimento da radiofrequência, o formato de trícipe hélice do colágeno é destruído, uma vez que suas ligações intermoleculares são sensíveis a baixa temperatura, ocorrendo a separação de suas pontes de hidrogênio e surgindo um aspecto de colágeno mais flexível, fácil de ser reabsorvido por fagocitose 7,8,9,10.

Vários experimentos in vivo e in vitro produziram evidências sobre a modificação térmica de tecido colágeno, mas não há consenso sobre um algoritmo terapêutico ótimo, mas sabe-se que com diferentes temperaturas, é possível aumentar ou diminuir a densidade de tecido colágeno, desde seu relaxamento até seu enrijecimento e desidratação 8,9,10.
Buscando em bases da literatura médica (Pubmed, PeDro, Scielo), é possível encontrar muitos estudos que abordam os efeitos da radiofrequência em fibrose desde sua atuação em enfermidades como a esclerodermia até nos septos fibrosos responsáveis pelo processo de celulite. Neste ultimo caso foi possível observar pelo exame de ultrassonografia que a utilização de temperatura mais baixa, foi capaz de reduzir a espessura do septo fibroso e uma melhoria na aparência clínica da celulite, demonstrada pelo grau de severidade reduzida e diminuição do espessamento do septo interlobular. Do mesmo modo, outros estudos demonstram efetividade da radiofrequência em celulite flácida (utilizando 40oC) quando se percebe o aumento dos septos interlobulares. Há estudo também dos seus efeitos em fibrose pós queimaduras e cicatrizes de acne vulgar que apresentam o mesmo processo 11, 12,13,14.15.

Diante dos resultados da radiofrequência em fibroses de colágeno tipo I e III, mesmo tipo encontrado nos processos de fibrose do pós operatórios de cirurgia plastica estética, iniciou-se o uso desta técnica no sentido de facilitar sua absorção e os resultados clínicos vem sendo apresentados, mas infelizmente não há publicações especificas já que a maioria dos profissionais não conhecem e não utilizam o recurso da radiofrequência de forma correta em relação a temperatura.
Vale salientar que, como relatam os colegas Krueger, Sadick e Marian Northington16,17, a radiofrequência ainda gera muita discussão quanto aos seus parâmetros e uso e pior, muitos profissionais ainda não sabem utilizar e avaliar bem seus pacientes para saberem adequar as temperaturas ideais aos seus objetivos de tratamento.

Referências:
1. Hess CT. Tratamento de feridas e úlceras. 4.ed Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso editores, 2002. 226 p. (Enfermagem prática ).
2. Saldanha OR et al . Lipoabdominoplastia: redução das complicações em cirurgias abdominais. Rev. Bras. Cir. Plást. (Impr.). 2011; 26(2).
3. Silva DB. A Fisioterapia Dermato funcional como potencializadora no pré e pós operatório de cirurgia plástica. Fisioter. 2001;5(28):13-15.
4. Tacani RE, Gimenes RO, Alegrance FC, Assumpção JD. Investigação do encaminhamento médico a tratamentos fisioterapêuticos de pacientes submetidos à lipoaspiração. Mundo Saúde. 2005;29(2):192-8.
5. Lisboa FLF, Meyer PF, Alves DK, Wanderley SC.Um protocolo para avaliação fisioterapeutica dos níveis de fibrose cicatricial em pós-operatório de lipoaspiração ou não à Abdomioplastia .Reabilitar. 2003;5(19):11-18.
6. Borges FS. Modalidades Terapêuticas nas Disfunções Estéticas. São Paulo: Ed. Phorte; 2010.
7. Gómez AC. Radiofrequência capacitativa em celulitis. Casuística. Anais do XVI Congresso Mundial de Medicina Estética. Argentina: Buenos Aires; 2007:11-14.
8. O. A. Ronzio, P. F. Meyer, T. D. Medeiros, and J. B. Gurj ˜ ao, “Efectos de la transferencia el´ectrica capacitiva en el tejido dermico y adiposo, Fisioterapia. 2009;31(4):131-136.
9. L. K. Smalls, C. Y. Lee, J. Whitestone, W. J. Kitzmiller, R. R. Wickett, and M. O. Visscher, “Quantitative model of cellulite: three-dimensional skin surface topography, biophysical characterization,andrelationshiptohumanperception,”Journalof CosmeticScience. 2005; 56(2):105-120.
10. O.A.Ronzio,“Radiofrecuenciahoy” IdentidadEstética,vol.6, no.3,pp.12–16,2009.
11. Meyer, PF et al. Effect of Capacitive Radiofrequency on the Fibrosis of Patients with Cellulite. Dermatology Researchand Practice. 2013.
12. Emilia del Pino M, Rosado RH, Azuela A, Graciela Guzmán M, Argüelles D, Rodríguez C, Rosado GM.J Effect of controlled volumetric tissue heating with radiofrequency on cellulite and the subcutaneous tissue of the buttocks and .J Drugs Dermatol. 2006 Sep;5(8):714-22.
13, Wang LZ1, Ding JP, Yang MY, Chen DW, Chen B. Treatment of facial post-burn hyperpigmentation using micro-plasma radiofrequency technology. Lasers Med Sci. 2015 Jan;30(1):241-5. doi: 10.1007/s10103-014-1649-6.
14. Camino A, Madrid AH, Rebollo JM, Peña G, Socas AG, Moro C. Radiofrequency ablation of recurrent monomorphic ventricular tachycardia in a patient with severe systemic scleroderma. Rev Esp Cardiol. 2001 Mar;54(3):405-8.
15. Simmons BJ, Griffith RD, Falto-Aizpurua LA, Nouri K. Use of radiofrequency in cosmetic dermatology: focus on nonablative treatment of acne scars. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2014 Dec 12;7:335-9. doi: 10.2147/CCID.S74411.
16. Northington M1. Patient selection for skin-tightening procedures. J Cosmet Dermatol. 2014 Sep;13(3):208-11. doi: 10.1111/jocd.12106.
17. .Krueger N1, Sadick NS. New-generation radiofrequency technology. Cutis. 2013 Jan;91(1):39-46.

Fonte imagem: http://bit.ly/wavesradio

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