Cicatrizes

0
1665

silvilena_bonati_art01

A busca pela saúde, beleza e qualidade de vida vem crescendo e, juntamente, a procura por procedimentos para alcançá-las, dentre eles os tratamentos estéticos e as cirurgias plásticas.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia  Plástica  Estética, o Brasil é o segundo país do mundo onde são realizadas mais cirurgias plásticas, atrás dos Estados Unidos. Toda cirurgia plástica implica cicatrizes, que sempre são realizadas de modo que fiquem escondidas e imperceptíveis. Entretanto, algumas vezes, seja por maus cuidados ou pela individualidade de cada pessoa, as cicatrizes podem ficar com aspecto indesejável: hipercrômicas, alargadas, hiperêmicas, inclusive fibroproliferativas – hipertróficas e queloides (Hochman, 2005).

Regiões tropicais e mais desenvolvidas tem fatores como o clima e o estresse, que predispõem a população a ser mais suscetível às cicatrizes inestéticas. O sol, que deve ser evitado nos primeiros meses da cirurgia, pode acarretar cicatrizes hipercrômicas; o calor favorece a desidratação e, assim, a hiperemia e prurido na cicatriz; por outro lado, estimula a sudorese e aumento da oleosidade da pele, que predispõe ao surgimento de cicatrizes fibroproliferativas. O estresse leva o corpo a liberar uma série de hormônios e neuropeptídeos que refletem diretamente na pele e no processo de cicatrização (Hochman et al. 2008).

O aspecto da cicatriz, quando inestético, pode gerar incômodo e atrapalhar o convívio social da pessoa, como foi verificado em um estudo realizado por Furtado et al. (2010), que demonstrou o constrangimento e queda na qualidade de vida de pessoas portadoras de quelóides e cicatrizes hipertróficas.

O que mais incomoda as pessoas, com relação às cicatrizes, são o relevo e a coloração. A fisioterapia dermatofuncional além de tratar e prevenir as possíveis complicações pós-operatórias, pode também abordar as cicatrizes e contribuir para o resultado satisfatório da cirurgia plástica seja com orientações ao paciente ou com recursos, que complementam o tratamento médico.

No caso de cicatrizes fibroproliferativas, o sucesso do tratamento consiste em terapias combinadas, ou seja, a politerapia. O cirurgião plástico pode fazer infiltração com corticoide e associar à pressoterapia, que é o uso de malha compressiva associada à placa de silicone com objetivo de abaixar o relevo da cicatriz e hidratá-la. Por vezes, pode haver indicação de ressecção, o que é determinado a critério médico e preferencialmente quando a cicatriz não apresenta sintomas de prurido ou hipersensibilidade, sinais que denotam uma possível recidiva em caso de exérese, ainda que associada à betaterapia.

A fisioterapia dermatofuncional, dentro de seu amplo leque de atuação, pode contribuir para o tratamento das cicatrizes fibroproliferativas, junto à abordagem  médica. Um dos recursos seria a aplicação de laser infravermelho em alta dosagem (Lev-Tov et al., 2013; Webb & Dyson, 2008), que alguns estudos demonstram ter um efeito inibitório na proliferação de fibroblastos e síntese de colágeno. A eletroterapia (Borba et al., 2010), pode amenizar sintomas de prurido e dor, desde que bem indicada, pois libera neurotransmissores responsáveis pelo crescimento e atividade da cicatriz. A fonoforese com corticoide pode ser aliada à infiltração, a fim de reduzir o volume e espessura; lembrando que o excesso de ambos os procedimentos levam à formação de telangectasias, daí sua indicação e aplicação requererem certa parcimônia.

As cicatrizes hipercrômicas, embora apresentem relevo normal, causam insatisfação pela coloração caracterizada pelo excesso de melanina. Seu tratamento pode ser à base de ácidos, dermocosméticos clareadores e lasers de alta potência prescritos pelo médico. A fisioterapia pode somar, neste caso, com a carboxiterapia para melhorar a circulação e perfusão da cicatriz, de modo até a preparar este tecido para receber um tratamento mais ablativo, como um laser de alta potencia. A luz intensa pulsada também é bem indicada para o tratamento das discromias cicatriciais, com resultados bem satisfatórios.

É importante ressaltar algumas orientações ao cuidar de uma cicatriz; uma vez que se trata de um tecido fibroso e sem anexos cutâneos, sua taxa de evaporação de água (TEWL) é aumentada; para compensar essa falta, o organismo aumenta a circulação local e a liberação de neuropeptídeos, que caracterizarão a hiperemia e prurido cicatricial. Estes sintomas são facilmente solucionados com a hidratação, realizada com óleos (de rosa mosqueta, ácidos graxos essenciais) e gel ou placa de silicone. Tais cuidados devem ser mantidos pelo menos por 8 a 12 meses após uma cirurgia plástica. O uso de filtro solar é muito importante, pois hidrata e protege a cicatriz da radiação ultravioleta, previnindo a hipercromia e cicatrização hipertrófica.

Em quaisquer casos de cicatrizes inestéticas, sejam elas fibroproliferativas ou hipercrômicas, as causas basicamente advem da falta de cuidados e de orientações, com relação à exposição solar, hidratação e estresse. O melhor tratamento é a prevenção baseada na conscientização do paciente e do bom acompanhamento pós-operatório por parte do médico e do fisioterapeuta dermatofuncional!

Furtado F, Hochman B, Ferrara SF, Dini GM, Nunes JM, Juliano Y, Ferreira LM. What factors affect the quality of life of patients with keloids?. Rev Assoc Med Bras;2009;55(6):700-4.

Borba G, Hochman B, Liebano RE, Ferreira LM. Does Preoperative Electrical Stimulation of the Skin Alter the Healing Process?. J Surg Res; 2010:166,324–29.

Hochman B, Vilas Bôas FC, Mariano M, Ferreiras LM. Keloid heterograft in the hamster (Mesocricetus auratus) cheek pouch, Brazil. Acta Cir Bras. 2005;20(3):200-12.

Hochman B, Nahas FX, Sobral CS, Arias V, Locali RF, Juliano Y, Ferreira LM. Nerve fibres: a possible role in keloid pathogenesis. Br J Dermatol. 2008 Mar;158(3):651-2

Lev-Tov H, Brody N, Siegel D, Jagdeo J.  Inhibition of fibroblast proliferation in vitro using low-level infrared light-emitting diodes. Dermatol Surg. 2013;39:422-5.

Webb C, Dyson M. The effect 880 nm of low level laser energy on human fibroblasts: a possible role in hypertrofic wound healing. J Photoch Photobiol Biol. 2003; 70: 39-44.

Compartilhar
Artigo anteriorDesafios do clareamento da pele no verão
Próximo artigoO que é o método Pilates?
Silvilena Bonatti
Silvilena Bonatti é graduada em Fisioterapia pela Unesp e fez especialização em dermato-funcional. É especialista em Pesquisa em Cirurgia e Aperfeiçoamento em Cirurgia Plástica e coordenadora do MBA em Dermato-funcional Estética e Cosmética CEFAI.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here