Propriedades viscoelásticas da pele e suas implicações na estética

0
1209

A pele é considerada um tecido viscoelástico, isto significa que, removidas às forças, o elemento elástico recupera sua dimensão ou forma inicial após uma deformação sem nenhum gasto energético. No entanto, obedece à magnitude da força de deformação aplicada e do tempo em que a tensão deformante é mantida. Assim como outros materiais, obedece a limites físicos: limite de elasticidade, limite de plasticidade e limite de ruptura. Estes conceitos são importantes quando relacionados aos tratamentos estéticos, tais como a massagem modeladora, a massagem mecânica (endermologia) ou a massagem vibratória. Estudos demostram que essas técnicas melhoram a drenagem vascular e linfática, favorecem a nutrição e induzem ao remodelamento tecidual. No entanto, será que podem afetar a estrutura da pele a ponto de causar reações indesejadas?

Para esclarecer essas e outras dúvidas uso um exemplo simples, que costumo dar nos cursos que ministro. Trata-se de um comparativo sobre as forças aplicadas a um pedaço de elástico, destes usados na confecção de roupas.

Situação 1: Imagine que você tem um pedaço elástico de aproximadamente 20 cm preso entre suas mãos. Estique esse elástico e solte. Conclusão: removida a tensão, o elástico volta as condições originais.

Situação 2: Imagine agora que essa tensão aplicada perdurará por horas. Nessa situação, ao remover a força, provavelmente o elástico estará todo ondulado, portanto deformado.  Conclusão: nesta situação, o material ultrapassou o limite elástico e atingiu a plasticidade. Esse princípio é muito usado em exercícios de alongamento, em que se sustenta uma postura para que tenhamos o que chamamos de remodelagem ou adaptação plástica.

Situação 3: Agora imagine que está esticando este elástico até que se rompa. Agora atingimos o limite de ruptura.

Se transferíssemos os conceitos acima citados sobre os tecidos biológicos teríamos uma situação similar. Se movimentos com tensão modulada são feitos dentro do limite elástico sobre a pele, quando removida a tensão, esta volta as condições iniciais. Se for sustentada, como ocorre, por exemplo, durante a gestação ou quando ganhamos peso, se essa condição ultrapassa o limite o limite elástico, resulta em flacidez de pele. Pode, em alguns pontos, inclusive, atingir o limite de ruptura e consequentemente resultar em estrias. Quando aplicamos técnicas em que forças mecânicas (compressão, descompressão, cisalhamento) atuam sobre a pele e estruturas imediatamente abaixo, outro ponto importante deve ser considerado: as forças aplicadas atuam não somente sobre o tecido conjuntivo estrutural, comprime vasos sanguíneos e também terminações nervosas de dor.

estelas

Dúvidas muito frequentes nas pessoas que recebem tratamentos estéticos como massagem modeladora ou massagem mecânica são:

Esse tipo de tratamento pode causar flacidez de pele?

R: Não! Seguidos os conceitos físicos dentro do limite de elasticidade.

Mas se a técnica for feita com uma tensão controlada (forças aplicadas dentro do lilite de elasticidade) terá efeito?

R: Sim! Os tecidos biológicos, quando deformados, demonstram um fenômeno eletromecânico denominado piezoeletrecidade. Estas forças são criadas naturalmente nos tecidos e são enormemente ampliadas durante atividades esportivas e laborais. Na pele, em especial durante o tratamento com massagem manual, massagem mecânica ou massagem vibratória, este fenômeno é produzido e auxilia na deposição orientada das fibras de colágeno. Esse mecanismo tem recebido atenção devido a sua possível função no crescimento e remodelagem do tecido conjuntivo e por inibir a produção de enzimas que degradam proteínas chamadas proteases. Estudos recentes demostram também que a aplicação de forças mecânicas às células pode levar à ativação de síntese de fatores de crescimento celular, mesmo na ausência de ligação/ligante.

Como o terapeuta sabe se está atuando dentro destes limites?

R: A produção de petéquias, que são pequenos pontos avermelhados na pele ou ainda a presença de hematomas são claros indícios de atuação acima dos limites elástico e plástico com ruptura da parede de alguns vasos sanguíneos.

A massagem manual ou mecânica pode causar vasinhos (telangiectasias)?

R: Sendo a técnica aplicada dentro do limite elástico já descrito, não! É necessário investigar, durante a avaliação, se o indivíduo que vai se submeter à técnica apresenta fragilidade capilar.

TÉCNICAS DE MASSAGEM

As tensões às quais a pele é submetida podem ser de origem estática ou dinâmica. A tração da pele provoca o estiramento destas fibras na direção da força de tração, até um ponto limite em que as mesmas se alinham paralelamente umas às outras, formando uma estrutura muito resistente à extensão adicional. A resistência à tração está relacionada ao grau de organização em paralelo das fibras de colágeno. Langer, em 1861, analisando as variações direcionais na tensão e extensibilidade cutânea no organismo, descreveu suas famosas linhas de clivagem, também denominadas linhas de máxima tensão ou de extensibilidade mínima. A aplicação de técnicas seguindo as linhas de tensão favorece o tratamento e deve ser uma orientação a ser seguida.

A massagem mecânica apresenta dois tipos de equipamentos: uma com aplicador com vácuo e roletes motorizados e necessidade de uso de uma malha protetora para evitar pinçamento da pele e outra com aplicadores com vácuo e roletes sem motor. Ambas as técnicas apresentam vantagens e desvantagens, porem uma vantagem clara da técnica não motorizada é a possibilidade de monitoramento da pele durante o tratamento. Basta provocar uma forte hiperemia e os resultados aparecerão. Já com a malha, o risco de induzir uma lesão acaba sendo maior, já que se perde o referencial visual do tecido abaixo da malha.

A massagem modeladora utiliza de movimentos derivados da massagem manual clássica. Essa técnica usa de energia mecânica produzida pelas mãos em movimentos rápidos, repetitivos e firmes para estimular os tecidos e modelar a superfície corporal.

A massagem por vibração é outra técnica bastante interessante é. A compressão dinâmica ou oscilatória resulta em pressão hidrostática aumentada, favorece a formação dos potenciais elétricos, aumenta a permeabilidade aos íons Ca+2 que podem estimular a biossíntese de proteínas incluindo colágeno e elastina.

Conclusão:

Técnicas que usam a energia mecânica nos tratamentos estéticos estimulam a remodelagem tecidual, aumentam o fluxo sanguíneo local, a drenagem dos líquidos e a eliminação de toxinas. Porém o conhecimento profundo das técnicas, das propriedades físicas dos tecidos e das hipóteses que sustentam os resultados clínicos são essenciais para potencializar os resultados e minimizar o aparecimento de efeitos indesejáveis.

Referências bibliográficas:

Blome DW. Endermologie: Its use in the cosmetic surgical practice. Cosm Dermatol; jan: 31-36 1999.

Chang P, Wiseman BS, Jacoby T, Salisbury AV, Ersek RA. Nonivasive mechanical body contouring: (Endermologie) A one-year clinical outsome study update. Aesth. Plast. Surg.; 22: 145-153, 1998.

Silver FH, Seehra GP, Freeman JW, DeVore D. Viscoelastic Properties of Young and Old Human Dermis: A Proposed Molecular Mechanism for Elastic Energy Storage in Collagen and Elastin. Journal of Applied Polymer Science, Vol. 86, 1978–1985, 2002.

Silver FH. The Importance of Collagen Fibers in Vertebrate Biology, Journal of Engineered Fibers and Fabrics v 4, Issue 2, 2009.

Deixe uma resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here