Do nada à Estética

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“Meu nome é Jane Lúcia, tenho 41 anos e sou Esteticista, com muito orgulho!

Minha mãe era inteligente, bonita e educada, tinha formação de professora, mas nunca exerceu a profissão. Éramos três filhos, e eu era a mais velha. O homem que eu considerava meu pai foi preso, quando eu tinha 4 anos de idade e eu assisti a sua prisão. Passei a ser filha de mãe solteira, e por isso, sofria rejeição.

Passávamos fome e, para termos o que comer, catávamos restos de comida em supermercados e restaurantes da redondeza. Para conseguir algum dinheiro, carregávamos material de construção e latas com água para os vizinhos. Morávamos em um barraco de pau a pique, cedido por uma prima da minha mãe, mas quando chovia, a água entrava pelo telhado e por baixo das paredes. Não tínhamos fogão, nem móveis, apenas uma cama com um colchão de palha e muitos percevejos.

Quando eu tinha 9 anos, minha mãe deu permissão para que a minha professora me levasse para trabalhar como empregada doméstica na casa dela. O que parecia ser uma boa oportunidae, mostrou-se mais um pesadelo, eu comecei a apresentar crises de epilepsia e a professora não permitia que eu tomasse a medicação, mesmo que o cachorro da família fizesse uso do mesmo remédio…

Na mesma época, minha mãe se envolveu com o pai do meu irmão, e ele tentou abusar de mim. Eu falei para a minha mãe, mas ela não acreditou. Para provar que falava a verdade, coloquei embaixo do meu travesseiro, uma foice sem cabo, e quando ele veio mexer comigo, joguei a foice em cima dele e o feri. Por conta disso, fui posta para fora de casa.
Aos 14 anos de idade, fui vendida a um bandido, por uma pessoa que me viu nascer. Hoje entendo que fui estuprada, mas fiquei com ele e tive três filhas. Não gostava daquela vida, nunca usei drogas e fugi dele, pois apanhava muito. Ele sequestrou nossa filha, foi preso por tráfico, sequestro da própria filha, e assim que me vi livre dele, comecei a tentar colocar minha vida em ordem.

Mesmo com todos os problemas anteriores, voltei para a casa de minha mãe e arrumei um trabalho como doméstica. Eu trabalhava em troca de comida para as minhas filhas. Logo depois, consegui um emprego e, dessa vez foi melhor, pois recebia um salário em dinheiro. Consegui colocar minhas duas filhas mais velhas em uma creche de freiras e pagava uma pessoa para tomar conta da mais nova.

Um vizinho, que me conhecia desde pequena se aproximou de mim e me pediu em casamento. Recusei, mesmo sabendo que poderia enfrentar mais dificuldades para criar as minhas meninas. Conheci um outro homem, que vendo a minha situação, comprometeu-se em me ajudar. Confiei nele e fui morar em sua casa. Ele me acolheu, me tirou do fundo poço. Ele era solteiro, mas mesmo assim, nunca nos envolvemos romanticamente. Eu achava que estava atrapalhando a sua vida, afinal a minha presença poderia atrapalhar qualquer tipo de relacionamento dele com outras mulheres, mas ele me garantiu que estava me ajudando sem segundas intenções. Vivemos alguns anos na mesma casa como amigos, e hoje, ainda somos amigos. Ele cuidou de mim e é o mais próximo que eu tenho de uma “mãe”.

Ele me incentivou a prestar um concurso para gari na minha cidade. Fiz, passei e tudo melhorou. Voltei a estudar, e mesmo depois de inúmeras dificuldades, consegui concluir o ensino médio em 2012. Ainda como gari, consegui uma bolsa de 50% em uma universidade particular e cursei Serviço Social.

Tranquei a matrícula na faculdade, pois percebi que eu ainda não estava satisfeita. Eu queria poder levar saúde e bem-estar para a vida das pessoas. Busquei um curso técnico gratuito de Estética no Senac, mas para fazer o curso precisei pedir demissão da empresa. Fiquei com medo, mas fui em frente.

Sofri discriminação da minha turma, pois era favelada e já tinha 40 anos. Era muita pressão e até pensei em abandonar o curso, mas perseverei e me formei em Estética em Julho de 2015. Já estou fazendo outro curso e este ano, me formo em técnica de Enfermagem. Pretendo retornar à faculdade, e minha escolha é pelo curso de Estética. Entendi que a Estética é muito mais que beleza e status, Estética é saúde! Quero exercer essa profissão linda e quero poder oferecer sempre mais para as minhas clientes! 

Resumidamente, essa é minha história. Tenho orgulho de ter sido gari, pois até chegar à Estética, foi assim que sustentei meus filhos. Não foi fácil educar as minhas mãos para a Estética, mas consegui e depois de tantas lutas, tenho certeza que um dia vou conseguir ser a profissional que eu sonho!”

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que história bacana! Isso só confirma que quando a pessoa tem caráter vai sempre pelo caminho do bem, independente de muitas vezes ser o mais difícil. Parabéns, guerreira!

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